bilhetinhos e tesouros
no dia das mães
Desde que fiz o curso de escrita criativa da Cris Lisboa, adotei seu mantra de “colecionar domingos”, especialmente depois da partida de minha mãe. Porque domingo era o dia que a gente falava mais (ou mais se falava). Era um resumo da semana que tinha sido e um monte de desejos bons pra semana que começaria, amém.
Depois que ela se foi, decidi que domingos seriam nossa ponte. Sempre que sinto a saudade apertar, escolho um disco da - agora - nossa coleção e coloco na vitrola pra tocar. Domingo é mesmo um sentimento. Deve ser por isso que comemoramos o dia das mães num domingo (nada é à toa).
Vou pegar aqui emprestadas algumas palavras da Cris pra explicar porque domingo é essa coisa:
“Fato é, aos domingos os minutos se espreguiçam antes de levantar. (…) Se tiver sol, os domingos exigem que sejam abertas todas as janelas da casa. Convém pedir perdão ao clichê e colocar na vitrolinha a Gal cantando Tim Maia, (…) Se por acaso tiver um pãozinho de queijo esquecido no freezer, perfumar a casa com ele, (…) Em todas as situações, seja como for, é preciso existir sentindo muito. (…) escolher um filme, cochilar sem culpa alguma e decidir que na segunda tal coisa será resolvida. (…)
Domingo a gente vive. E, então, coleciona.”
Não é uma boniteza? E ao mesmo tempo é meio que sem explicação, só se sente mesmo. Domingos.
Pois bem, hoje é domingo e dia das mães e eu quero contar uma história pra vocês. Dizem que a gente inventa sinais onde quiser pra justificar uma coisa na qual quer acreditar. Pode ser. Então vou dividir aqui uma coisa que eu inventei e que me ajuda muito a sorrir quando o luto aperta.
Minha mãe era dessas pessoas que via beleza em tudo, tudo mesmo. Uma folha seca caída no chão que, por acaso, formava um coração. Uma pedra que tivesse um brilho bonito, uma casca, um galho seco.
E ela trazia tudo isso pra dentro de casa e transformava numa coisa ainda mais bonita. Ela me fazia reparar em como o raio de sol perfurava as folhas altas de uma árvore, fazendo um desenho bonito pra quem estava embaixo dela ver. De como era bonito quando esse mesmo sol iluminava por cima da água do mar e parecia um monte de lantejoula dourada se sacudindo pra lá e pra cá.
Sabe, bonitezas assim? Há de se treinar o olhar, é fato.
Sou grata por ter tido uma boa professora.
Aí que eu virei a pessoa estranha que sai catando coisas aleatórias do chão. Criei uma nova mania: eu volto das viagens com um souvenir local, mas não desses que se compra. Mas sim desses que nem preço tem.
Bom, aí que logo no comecinho do meu processo de entender e passar pelo luto nos primeiros dias, lembro que eu estava muito, muito triste passeando com as minhas cachorras quando uma borboleta branca, do nada, começou a voar em volta de mim.
E me arrancou um sorriso. Me arrancou também um pouco daquela tristeza toda que eu estava sentindo. Não sei, mas aquela borboleta me ajudou a carregar meu peso pelos minutos que me acompanhou.
E então, toda vez que eu sentia um pouco dessa tristeza, uma borboleta branca aparecia do nada. Em volta do carro, parada na janela, entrando em algum lugar, voando da minha frente, pousando numa flor pelo caminho. Sempre. Toda vez.
E aí eu pensei: acho que minha mãe encontrou um jeito de me mandar um bilhetinho de amor só pra me lembrar de que eu nunca vou estar sozinha.
E pra onde eu vou, às vezes mesmo sem estar triste, me aparece uma borboleta. Coloridas, laranjas, pretas, brancas, azuis, uma mais linda que a outra. Sempre. E eu sorrio todas as vezes. E agradeço pela visita, pelo lembrete.
Aí eu me lembrei de uma série que assisti na Netflix chamada As Quatro Estações. Fui ver sem esperar nada só porque tinha o Steve Carell e o Colman Domingo no elenco, mas acabei me apaixonando mesmo foi pelo Marco Calvani (que é marido do brasileiro Marcos Pigossi, sabe?). É claro, lindo, bom no que faz, carismático, educado, só podia mesmo ser gay (sim, sou heterofóbica e sim sou hétero).
Bom, a série é sobre um grupo de amigos 50+ lidando com uma série de acontecimentos novos - spoilerszinhos - como divórcio e morte. Sim, um dos amigos morre.
E aí tem esse diálogo aqui entre o casal maravilhoso vivido por Colman e Marco, Danny e Claude (que, aliás, é minha meta de relacionamento porém como gosto de homem creio que seja impossível):
- Vai ficar tudo bem. - diz Claude
- Como? Ele tá morto. É uma merda. - responde Danny
- Eu sei. Mas também é lindo, porque Nick é uma borboleta agora.
- Que?
- Ontem eu sonhei com o Nick. Ele estava cercado por borboletas e parecia muito feliz. E hoje de manhã, Anne me deu uma caneca, e na lateral…
- Uma borboleta!
- Isso. Acho que é o jeito dele de nos dizer que sempre estará conosco.
- Hummm, não gosto dessas coisas.
- Mas pensei que talvez ele tivesse comentado com você que amava borboletas ou que tinha uma ligação com elas…
- Claro que não! Ele não era uma criança nem a Mariah Carey. Ele cagava para borboletas.
- Que ironia ele ter se tornado uma então.
É Claude, eu acredito em você. Mesmo que o Nick não tivesse conexão alguma com borboletas. Minha mãe e eu também nunca falamos nada especificamente sobre borboletas, mas e daí?
Bom, aí que o Danny fica meio puto com essa história e dá um gelo no Claude. Porque o Claude é desses sabe, que tem o olhar treinado pras bonitezas do mundo.
E um dia, Danny está lá cozinhando e Claude chega pra ajudar. Danny vai procurar um tempero, mas como não sabe onde está pois está na cozinha do amigo que morreu, sai abrindo todas as portas dos armários. E numa delas, ele encontra um desenho pendurado que a filha do Nick tinha feito.
É, a gente vê sinais onde acredita.
Bom, aí que tudo isso também me lembrou de um outro trecho de um filme chamado Do Outro Lado da Dor (também na Netflix). - spoilerszinhos - Nele, Marc (Daniel Levy) acabava de perder seu marido de forma inesperada e resolve viver seu luto viajando com seus melhores amigos pra Paris.
O trecho é esse aqui, de uma conversa entre o Marc e sua psicóloga (ou editora, agora não me lembro bem):
“Li que o cérebro é como um músculo. Por isso superar uma morte é tão difícil. Seu cérebro treinou para ter sentimentos por uma pessoa. E quando a pessoa vai embora, sua cabeça ainda opera sob a impressão que deveria sentir aquilo… por aquela pessoa. Como uma memória muscular. Então estou treinando meu cérebro a não sentir muito no momento. Só pra seguir o próximo ano sem ser constantemente lembrado que agora sou órfão e viúvo.”
É muito mais fácil mesmo treinar o olhar pras bonitezas do mundo do que treinar o cérebro a não sentir mais nada. Ou sentir menos. Ou fingir que não sente.
Cada um tem um jeito de lidar com o luto, com as perdas, com as partidas. E se hoje for um dia um pouco mais difícil pra você também, quem sabe não é hora de tentar ressignificar o jeito como vê o mundo.
Vai que algo te surpreende, vai que chega um bilhetinho de amor. Ou talvez apenas um pouco do peso que você sente se dissipe. Respire, inspire e expire. Feche os olhos, sinta a brisa do dia. Domingo também sabe abraçar.
No mais, fica a dica aí de uma série maravilhosa (eu amei muito e tô ansiosa pela segunda temporada) e desse filme tocante. Sintam-se todos abraçados.
Um feliz dia das mães pra quem é e pra quem tem.
E também pra aquelas que não estão mais por aqui mas que sempre vão continuar sendo a mãe de alguém.








Ju, me tocou demais essa edição. Eu tb sou essa pessoa que vê beleza em tudo, trago folhas que vejo formatos pra casa, faço vídeos de bichos que encontro no meio do caminho, para mostrar para as crianças. E acho que muito do meu jeito, vem da minha mãe tb. E lendo vc, pensei: será que meus filhos terão essa visão tão linda de mim, assim como vc fez da sua mãe? Porque eu tinha essa da minha.
Eu vejo sinal em tudo e sim, talvez para acreditar em algo. Toda vez que vejo borboletas amarelas sinto que é a presença da minha mãe. Principalmente, porque elas aparecem em momentos muito específicos, quando to precisando de um afago, sabe?
Sobre a série, acredita que comecei a ver e parei na metade do primeiro cap. Fui até pesquisar na Netflix pra ver se era a mesma e sim. E vi que vai ter a segunda. Eu vou começar de novo agora pela sua indicação.
E o filme coloquei na lista.
Que a gente siga colecinando domingo, esse tanto de sentimento.
Obrigada por essa edição tão delicada. E veja só, era de dia das mães, estou lendo só agora. Em boa hora.
Meu Deuuuuuusssss, eu também fiz o curso da Cris e passei a colecionar domingos.
Só queria fazer esse comentário antes de continuar a leitura. ahahaha